A PPID (disfunção da pars intermedia da hipófise, ou doença de Cushing) é uma doença de cavalos idosos, e hoje muitas éguas mais velhas continuam sendo usadas na reprodução. Uma revisão apresentada no congresso da AAEP em 2024 (Marchio et al., Texas A&M e Universidade de São Paulo) reúne o que se sabe sobre como a PPID afeta a fertilidade da égua. Em resumo: se a égua idosa está subfértil, vale investigar PPID, mesmo que a relação causal ainda não esteja provada.

Por que a PPID aparece na égua idosa

A PPID acomete cerca de 21% dos cavalos com mais de 15 anos e 2,9% da população geral. Ela surge pela degeneração dos neurônios dopaminérgicos que normalmente freiam a pars intermedia da hipófise. Sem esse freio, a glândula produz em excesso o ACTH e outros peptídeos derivados da POMC, o que altera cortisol, imunidade e hormônios da reprodução. Entre os cavalos idosos, os sinais mais relatados são atrofia muscular (45%), perda de peso (17% a 40%) e hipertricose (13% a 38%). A revisão também cita que cerca de 60% dos cavalos com PPID apresentam insulina de jejum alta, e que a poliúria e a polidipsia ocorrem em cerca de 33%.

Problemas reprodutivos descritos

  • Ciclos estrais irregulares, folículos anovulatórios e inatividade ovariana.
  • Endometrite frequente ou persistente, por imunidade uterina comprometida.
  • Ciclos ativos durante o inverno, por mais tempo ao longo do ano do que em éguas saudáveis.
  • Galactorreia, pela prolactina alta, já que a dopamina inibe esse hormônio.

A idade sozinha também reduz a fertilidade: em um estudo com 430 éguas Puro Sangue Inglês saudáveis, as com mais de 13 anos tiveram menor taxa de potros vivos, e as com mais de 8 anos, mais reabsorção embrionária e aborto. Por isso é difícil separar o efeito da PPID do efeito da idade.

Mecanismos propostos

  • Perda do controle dopaminérgico: em éguas saudáveis, bloquear a dopamina antecipou a primeira ovulação da temporada, o que sugere que ela regula a sazonalidade reprodutiva.
  • β-endorfina e prolactina: a β-endorfina pode inibir o LH, e a prolactina alta pode inibir o GnRH.
  • Compressão da pars distalis por adenoma, que pode prejudicar a liberação de gonadotrofinas.
  • Adrenal: o ACTH elevado estimula a produção de cortisol e de esteroides sexuais pela adrenal, que podem reduzir o GnRH. A hipercortisolemia, porém, não está consistentemente comprovada na PPID.
  • Evidência de campo: em 67 éguas Puro Sangue Inglês testadas no outono, as com ACTH intermediário ou alto (acima de 50 pg/mL) tiveram cortisol mais alto, e as com ACTH acima de 100 pg/mL tiveram menores taxas de concepção e de parição. O ACTH mais alto se associou a pior desempenho, mas a causa ainda não está provada.

Como diagnosticar

O ACTH basal é o teste estático mais usado, e o estímulo com TRH (ACTH aos 10 e 30 minutos) é complementar. Os valores de referência citados são de 15 pg/mL de novembro a julho, 20 em agosto e 30 de setembro a outubro (no analisador Immulite), mas são do hemisfério norte, e não há estudos que definam os valores no hemisfério sul. Se a égua tem sinais clínicos e o ACTH está normal, a revisão recomenda repetir o teste 3 meses depois e associar o estímulo com TRH. Raça e estação do ano influenciam o resultado, então a interpretação deve considerar o conjunto: sinais clínicos, comorbidades e época do exame. Veja também como interpretar o ACTH em pôneis no outono.

Tratamento descrito (para o veterinário)

  • Pergolida por via oral, 1 a 5 mg/500 kg a cada 24 horas, ou cabergolina de liberação lenta por via intramuscular, 2,5 a 5 mg/500 kg a cada 10 a 14 dias. Ambas foram eficazes para reduzir a prolactina em éguas.
  • Há um relato de caso de égua que recuperou a fertilidade com pergolida e voltou a ser usada como doadora de embriões.
  • Égua gestante ou lactante: os agonistas dopaminérgicos podem mimetizar a toxicidade da festuca e inibir a prolactina. Por isso a revisão descreve a interrupção do tratamento de 30 a 60 dias antes da data prevista do parto e a manutenção dessa pausa por cerca de 30 dias após, para evitar hipo ou agalactia, gestação prolongada e descolamento precoce da placenta. Confirme o protocolo com o veterinário responsável.
  • Manejo associado: dieta balanceada, tosa periódica, cuidados com os dentes e casqueamento para evitar infecções secundárias.

Dose, escolha do medicamento e ajuste durante a gestação são sempre decisão do veterinário.

Hipótese e limitações

A síndrome metabólica equina, pela inflamação e pelo estresse oxidativo, pode contribuir para o aparecimento precoce da PPID, mas isso ainda precisa ser provado. Os efeitos da PPID sobre a reprodução continuam mal conhecidos e a idade é um fator de confusão. Trata-se de uma revisão narrativa, sem dados novos. Leia também sobre a saúde metabólica da égua e a qualidade da cria.

Perguntas frequentes

PPID pode causar infertilidade na égua?

A revisão associa PPID a vários problemas reprodutivos, e o ACTH mais alto se associou a pior desempenho, mas a relação causal ainda não está provada e a idade também reduz a fertilidade.

Égua com PPID pode voltar a ser fértil?

Há um relato de caso de égua que recuperou a fertilidade com pergolida e foi usada como doadora de embriões, mas é um caso isolado.

Como diagnosticar PPID em uma égua?

Com ACTH basal e, quando necessário, estímulo com TRH, interpretados junto com sinais clínicos e a época do ano. Se há sinais e o ACTH está normal, a revisão recomenda repetir o teste após 3 meses.

O tratamento com pergolida pode ser mantido na gestação?

A revisão descreve a interrupção do tratamento de 30 a 60 dias antes do parto, porque os agonistas dopaminérgicos podem reduzir a prolactina e causar problemas na lactação. Siga a orientação do veterinário.

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