Seu cavalo coça, perde pelo e tem lesões que voltam todo ano? A alergia de pele equina, como a hipersensibilidade à picada de insetos, pode envolver não só o sistema imune, mas a própria barreira da pele. Em pessoas e cães com dermatite atópica, a pele “vazada” deixa passar alérgenos e dispara uma cascata de reações. Uma revisão de Marsella (Universidade da Flórida, 2025, Veterinary Sciences 12:91) reúne o que já se sabe sobre isso em cavalos, e o resumo é: há semelhanças, mas as evidências ainda são poucas.

O que é a barreira da pele

A barreira reúne camadas físicas, químicas, imunológicas e microbiológicas. Os queratinócitos, as células da epiderme, não são apenas um “muro”: produzem citocinas e peptídeos antimicrobianos e participam ativamente da resposta imune. Três pilares regulam a função da barreira: os lipídios do estrato córneo, os fatores naturais de hidratação (derivados da filagrina) e o pH ácido da pele. O microbioma também faz parte da barreira, pois ajuda a acidificar o pH e a processar lipídios em ceramidas.

O que se sabe sobre a pele do cavalo alérgico

  • Lipídios desorganizados: o único estudo de ultraestrutura, pequeno (2 cavalos com atopia e 2 normais), mostrou lamelas de lipídios bem organizadas na pele normal e material lipídico amorfo e desorganizado no estrato córneo da pele com lesão. Na pele sem lesão, as alterações também existiam, porém mais leves. Há ainda retenção de corpos lamelares nas células, alteração parecida com a da dermatite atópica de cães e pessoas.
  • Genes na pele lesionada: queda de genes de junções firmes e queratinas e aumento de serino-proteases, IL-13 e do receptor de IL-5. Esses achados podem ser consequência da inflamação, e não a causa. Genes de diferenciação final (filagrina, involucrina e loricrina) estavam normais, ao contrário do que ocorre em pessoas.
  • Epiderme de cavalos com hipersensibilidade à picada de insetos, mesmo sem lesão: queda de genes do metabolismo de lipídios e aumento do receptor da IL-31, citocina ligada à coceira. Pode ser uma “assinatura” da doença ou inflamação subclínica.
  • Queratinócitos em cultura: quando estimulados com citocinas alérgicas, aumentaram a expressão do gene da IL-31 (primeiro relato desse tipo em cavalos, mas só de expressão gênica, não de proteína).

Microbioma da pele

Em cavalos saudáveis, o ambiente pesa muito: cavalos que vivem juntos compartilham microbiomas, e a estação do ano foi o maior fator de variação, mais que a região do corpo ou o indivíduo. Já na dermatite de quartela há queda da diversidade bacteriana e predomínio de Staphylococcus, o que se correlacionou com a gravidade e com tratamento antibacteriano anterior. Cavalos alérgicos são propensos a piodermites estafilocócicas recorrentes. A autora aponta que o futuro tende a ser restaurar a biodiversidade da pele, e não depender só de antibióticos, em um cenário de resistência bacteriana crescente.

O que ainda não se sabe

  • Não há estudo comparando a perda de água pela pele (TEWL) ou o pH entre cavalos normais e alérgicos, então não se sabe se as alterações estruturais prejudicam a função da barreira.
  • Não há dados sobre ceramidas, filagrina nem peptídeos antimicrobianos em cavalos alérgicos.
  • Não se sabe se, em cavalos, a entrada de alérgenos pela pele é tão importante quanto em pessoas e cães.

Em cavalos normais, a TEWL varia com região do corpo (lábios têm os valores mais altos, a região lombar os mais baixos), raça, sexo, pelo (o resultado é mais consistente em área tosada) e clima. O pH foi mais consistente, mas variou entre dias e horários em 5 éguas. A autora sugere estudar o pH da pele de cavalos alérgicos, parâmetro confiável em outras espécies, e que sobe em infecções como a piodermite.

O que isso significa na rotina

Como a evidência em cavalos é preliminar, as medidas abaixo são extrapolações prudentes, sempre combinadas com o veterinário, e não protocolos comprovados:

  • Controle de insetos e manejo do ambiente continuam sendo a base nos casos de hipersensibilidade à picada.
  • Atenção à limpeza e à escolha de produtos que respeitem a pele, já que nenhum estudo testou produtos tópicos na barreira de cavalos alérgicos.
  • Lesões recorrentes ou com sinais de infecção merecem avaliação veterinária, em vez de tratamento por conta própria.

Veja também por que dieta e cosmético certo andam juntos. A linha EQUI’B trabalha com produtos de pH adequado para a pele do cavalo; a eficácia em cavalos alérgicos ainda não foi testada em estudos.

Perguntas frequentes

A barreira da pele causa alergia no cavalo?

Pode participar, mas a evidência é preliminar. Algumas alterações podem ser consequência da inflamação, e faltam estudos que comparem a função da barreira (perda de água e pH) entre cavalos normais e alérgicos.

A pele do cavalo alérgico é parecida com a de pessoas e cães com dermatite atópica?

Em parte. A ultraestrutura mostrou lipídios desorganizados, como na dermatite atópica, mas a filagrina parece normal nas lesões analisadas, ao contrário do que ocorre em pessoas. O estudo de ultraestrutura foi muito pequeno.

O que é a IL-31 e por que ela importa?

É uma citocina ligada à coceira. Em cavalos com hipersensibilidade à picada de insetos, o receptor da IL-31 aparece aumentado na epiderme e queratinócitos estimulados aumentaram a expressão do gene da IL-31, o que a torna um alvo de pesquisa.

Os produtos tópicos já foram testados na pele de cavalos alérgicos?

Não há estudos publicados sobre isso na revisão. Qualquer cuidado tópico deve ser alinhado ao veterinário.

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