É quase reflexo: o cavalo mostra os primeiros sinais de laminite, ou já está acima do peso, e a primeira reação de muita gente é cortar a comida — tirar a ração, reduzir o feno ao mínimo, às vezes deixar o cavalo praticamente em jejum “para ele emagrecer e tirar o açúcar do corpo”. A lógica parece fazer sentido. Só que ela pode causar exatamente o oposto do que se pretende — e, em alguns casos, criar um problema mais grave do que o original.
O mecanismo que ninguém explica: hiperlipemia por déficit calórico
A causa mais comum de hiperlipidemia em equinos não é o excesso de comida — é o balanço energético negativo, provocado sobretudo por restrição alimentar. Quando o cavalo recebe menos energia do que precisa, o corpo começa a mobilizar gordura das reservas para compensar. Só que esse processo, quando acontece de forma abrupta ou excessiva, sobrecarrega a capacidade do fígado de processar toda a gordura mobilizada — e o excesso de triglicerídeos se acumula no próprio fígado e retorna à circulação em concentração perigosa. É esse quadro que caracteriza a hiperlipemia, capaz de comprometer fígado, rins e coração, e que já foi associada a óbito em concentrações mais altas.
O jejum vira um segundo problema, em cima do primeiro
Cortar a ração de um cavalo já em crise de laminite não resolve a causa metabólica de base — e ainda cria um risco adicional. O corpo desse cavalo já está sob estresse fisiológico por causa da própria laminite (dor, inflamação, imobilidade); somar a isso um déficit calórico abrupto é empurrar o metabolismo para o cenário exato que mais favorece a hiperlipemia. Em vez de proteger o casco, essa estratégia pode adicionar uma sobrecarga hepática ao quadro que já era grave.
Quem corre mais risco com essa “solução”
Miniaturas, pôneis e jumentos são especialmente vulneráveis — o fígado desses animais processa pior o excesso de gordura mobilizada. Fêmeas, animais já obesos e animais sob estresse (e uma crise de laminite certamente conta como estresse) têm risco aumentado. Ou seja: exatamente o perfil de cavalo que mais recebe essa recomendação de “cortar tudo” é o que mais corre risco de desenvolver a complicação secundária.
A diferença entre tirar e ajustar
Explicar que a hiperlipemia pode ser desencadeada por déficit calórico é, na prática, dizer isto: o problema nunca foi a quantidade de comida em si — é a composição dela. O que precisa sair da dieta é o carboidrato não estrutural em excesso (açúcar e amido), não a energia como um todo. Um cavalo com laminite ou risco metabólico ainda precisa de energia suficiente para manter as funções básicas do corpo — só que essa energia precisa vir de uma fonte que não dispare picos de insulina, e não de forma nenhuma.
O que fazer na prática em vez de cortar tudo
- Mantenha o volumoso como base da dieta — forragem de qualidade mediana, não o corte total do feno.
- Priorize feno com CNS mais baixo, e encharque antes de oferecer para reduzir ainda mais o açúcar solúvel.
- Evite concentrados ricos em cereais e grãos — a restrição deve mirar essa fonte, não o volume total de alimento.
- Como a restrição calórica não reduz a necessidade de vitaminas e minerais, mantenha um suplemento ou ração balanceadora de baixo volume calórico.
- Ajuste a dieta com acompanhamento profissional, calculando o piso calórico mínimo do cavalo — não “no olho”.
Se o seu cavalo está com laminite, sobrepeso ou risco metabólico, o ajuste certo da dieta é o que protege — não o corte total da alimentação. A avaliação nutricional e endócrina da MetaHorse calcula exatamente esse equilíbrio para o seu cavalo. Fale pelo Instagram @veterinaria_sofia_cicolo ou pelo e-mail metahorsevet@gmail.com.
Perguntas frequentes
Tirar a ração do cavalo com laminite ajuda a controlar a crise?
Não necessariamente — e pode até piorar o quadro. O déficit calórico abrupto pode desencadear hiperlipemia, uma complicação hepática que soma um segundo problema grave ao quadro original de laminite.
Então o cavalo com laminite pode continuar comendo normalmente?
Não é continuar do mesmo jeito, é ajustar: reduzir o carboidrato não estrutural (açúcar e amido) da dieta, mantendo energia suficiente vinda de fontes adequadas, como forragem de baixo CNS.
Quais cavalos têm mais risco se ficarem em jejum ou com restrição severa?
Miniaturas, pôneis e jumentos têm o maior risco, além de fêmeas, animais já obesos e animais sob estresse — que é justamente a condição de um cavalo em crise de laminite.
Como saber a quantidade certa de comida durante o ajuste da dieta?
O ideal é calcular o piso calórico mínimo do cavalo com acompanhamento profissional, considerando peso, condição corporal e a composição real do feno e da ração — não reduzir “no olho”.
Sofia Cicolo da Silva
Médica Veterinária
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Cólica na Prática → Laminite Zero → Método da Escala do Farol Metabólico → Guia Nutricional MetaHorse →Fonte
DARADICS, Zsofia et al. Obesity-Related Metabolic Dysfunction in Dairy Cows and Horses: Comparison to Human Metabolic Syndrome. Life, v. 11, n. 12, 1406, 2021. DOI: 10.3390/life11121406.

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