Poucos animais domésticos têm uma relação tão antiga e tão diversa com o ser humano quanto o cavalo. E o Brasil está no centro dessa história mais do que a maioria das pessoas imagina: segundo dados do IBGE e do World Population Review de 2024, somos o segundo país com a maior população de equinos do mundo, com 5,7 milhões de cabeças — atrás apenas do México (6,4 milhões) e à frente de Mongólia, Cazaquistão e China. Não por acaso, temos hoje 30 raças de cavalos e pôneis oficialmente reconhecidas no país, sendo 13 delas genuinamente brasileiras.
Cada raça foi moldada por uma função — tração, velocidade, conforto de marcha, trabalho de gado, esporte — e entender essas diferenças ajuda bastante na hora de escolher (ou simplesmente admirar) um cavalo. Reuni aqui algumas das mais relevantes, com destaque para as brasileiras.
As raças genuinamente brasileiras

Mangalarga Marchador. Descende de cavalos Andaluz e Alter trazidos ao Brasil pela corte portuguesa, e é considerado hoje um dos principais cavalos de sela do mundo. A característica mais marcante é a marcha — um andamento próprio que reduz o impacto tanto para o cavalo quanto para o cavaleiro, o que o tornou historicamente essencial em longos deslocamentos. Tem pouco peso no dianteiro e garupa mais robusta, o que dá leveza aos movimentos e explosão no arranque. Vale um parêntese histórico: o Mangalarga teve papel de destaque como cavalo de combate na Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo — reconhecimento que hoje vira até estátua no Monumento Mausoléu do Obelisco do Ibirapuera.
Campolina.

Surgiu no fim do século XIX em Minas Gerais, do cruzamento entre Mangalarga Marchador e Puro Sangue Inglês. É um cavalo de porte grande, pescoço musculoso e garupa ampla, com altura entre 1,52 m e 1,58 m. O temperamento dócil e o andamento controlado fazem dele uma excelente opção de montaria.
Brasileiro de Hipismo (BH).

Raça mais recente, desenvolvida especificamente para o hipismo clássico — salto, adestramento, CCE — a partir de cruzamentos entre PSI, Mangalarga, Anglo-Árabe e sangues europeus de esporte. É também a raça oficialmente escolhida pelas polícias montadas de vários estados brasileiros: o porte elevado dá boa visão de campo ao policial, e o temperamento se mantém estável mesmo sob pressão, barulho e movimentação intensa.
Pampa.

Originário do bioma Pampa, no Rio Grande do Sul, é uma raça definida não só pela morfologia, mas pelo padrão de pelagem malhada — branco combinado com cores sólidas. Atualmente passa por um trabalho de seleção genética e registro genealógico para ganhar mais competitividade em mercados internacionais.
Crioulo. De origem espanhola, hoje fortemente associado à cultura gaúcha no Sul do país. É rústico e resistente, com uma característica clinicamente relevante: costuma lidar bem com forragem de baixa qualidade — o que, do ponto de vista metabólico, também o coloca entre as raças que exigem atenção redobrada a quadros de resistência à insulina e síndrome metabólica equina.
Raças internacionais que fazem parte do dia a dia brasileiro

Quarto de Milha.

Batizado por ser uma das raças mais velozes na distância de 402 metros (um quarto de milha), nasceu do cruzamento de cavalos selvagens norte-americanos com os animais trazidos por colonizadores ingleses — foi a primeira raça desenvolvida nas Américas. Chegou ao Brasil em 1995 e hoje é uma das mais numerosas do país, muito usada em provas funcionais e no trabalho de gado. Pode atingir até 88 km/h, pesa em torno de 500 kg e costuma ser bastante longevo (25 a 30 anos em boas condições de criação).
Puro Sangue Inglês (PSI). Originário da Inglaterra do século XVIII, a partir de éguas locais cruzadas com cavalos árabes. É a base genética por trás de várias raças de esporte, incluindo o próprio BH e o Campolina.
Árabe.

Menos numeroso no Brasil, mas com influência genética em várias outras raças. O cavalo Árabe é uma das raças mais antigas do mundo, originária da Península Arábica, reconhecida pela cabeça fina de perfil côncavo, narinas dilatadas, cauda erguida (“bandeira”) e ossatura leve porém extremamente resistente. Essa resistência o tornou a base genética de praticamente todas as raças de sela modernas e o torna, até hoje, dominante no enduro — modalidade que testa justamente a capacidade metabólica e cardiovascular do cavalo em provas de longa distância. Também é muito valorizado em halter (julgamento morfológico), onde sua elegância e proporções são avaliadas em movimento controlado. Envolvendo a raça há ainda uma lenda de fundo religioso: contam que o profeta Maomé, ao testar a lealdade de sua égua com dias de sede, teria selecionado os cinco melhores animais que atenderam ao seu chamado mesmo famintos — dando origem às “Al Khamsa”,


Puro Sangue Lusitano.

Uma das raças de sela mais antigas do mundo ocidental, de origem portuguesa. Foi amplamente usado no período das Guerras Napoleônicas e hoje é referência mundial em adestramento clássico — características como a garupa forte e a facilidade de recolhimento vêm justamente dessa vocação histórica. A inteligência e a coragem também explicam por que é a raça preferida em unidades de choque e cavalaria de elite em algumas polícias militares brasileiras.
As raças “gigantes” e as pintadas

Bretão

Da região da Bretanha, na França, foi moldado ao longo de séculos para ser o motor da agricultura. Tem porte musculoso e centro de gravidade baixo, ideal para tração pesada. É também o equino com a melhor conversão alimentar, o que o torna útil até como ama de leite para potros de outras raças, especialmente as de hipismo.
Shire.

O mais alto do mundo — cerca de 1,80 m e uma tonelada — com patas largas cobertas de pelagem densa, o que o torna hábil em neve e terrenos difíceis. Apesar do tamanho, é conhecido pelo temperamento dócil e paciente, o que facilita seu uso em desfiles e trabalhos rurais.
Appaloosa.

Surgiu na região do Rio Palouse, quando povos indígenas norte-americanos passaram a selecionar cavalos malhados descendentes de animais espanhóis. Corpo parecido com o do Quarto de Milha, mas com a pelagem — pintas e manchas escuras, especialmente na garupa e no tórax — como marca registrada.


Por que isso importa na prática
Cada raça carrega não só uma história, mas também um biotipo metabólico. Raças mais rústicas e “fáceis de manter” — como Crioulo e, em menor grau, Mangalarga Marchador — tendem a aparecer com mais frequência em quadros de síndrome metabólica equina e laminite, enquanto raças de biotipo mais atlético e leve, como BH, PSI e Lusitano, costumam exigir mais atenção ortopédica. É importante associar que muitas orações ortopédicas são de origem metabólica e tem relação com a criação e a nutrição. Saber a raça do seu cavalo é, portanto, o primeiro dado clínico — e ele já indica, antes mesmo do exame, para onde vale a pena olhar com mais cuidado.

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Perguntas frequentes
Qual raça de cavalo é a mais comum no Brasil?
Hoje, o Quarto de Milha é uma das mais numerosas, seguido de perto pelo Mangalarga Marchador — a raça genuinamente brasileira mais difundida no país.
Quantas raças de cavalo existem no Brasil?
São 30 raças de cavalos e pôneis oficialmente reconhecidas, sendo 13 delas genuinamente brasileiras.
Existe relação entre a raça do cavalo e o risco de síndrome metabólica equina?
Sim. Raças mais rústicas, com metabolismo “poupador” (easy keepers), como o Crioulo e, em certa medida, o Mangalarga Marchador, Luisitabo e o Brasileiro de Hipismo (warmbloods) tendem a ter mais predisposição a quadros de resistência à insulina e laminite do que raças de biotipo atlético mais leve.
O Brasil é um grande produtor mundial de cavalos?
Sim — é o segundo país com a maior população de equinos do mundo, atrás apenas do México, segundo dados do IBGE e do World Population Review (2024).
Fonte: elaborado por Me. M.V. Sofia Cicolo da Silva, com base em dados do IBGE, World Population Review (2024) e literatura de zootecnia equina sobre origem e características das raças citadas.

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