Há uma frase que todo profissional do meio equino já ouviu — e talvez até já tenha dito: “ela está assim porque deve estar no cio.” O comportamento difícil, a irritabilidade, a queda de rendimento, a dor sem causa aparente: por décadas, o hormônio foi o principal suspeito sempre que uma égua “não colaborava”.
Um estudo recente conduzido na Universidade de Helsinki, publicado no Journal of Equine Veterinary Science, colocou essa crença à prova — e os resultados merecem a atenção de todo tutor e todo profissional que trabalha com éguas.
O estudo
A pesquisadora Anna-Maria Kareskoski analisou retrospectivamente os prontuários de um hospital-escola veterinário, totalizando 14.993 éguas atendidas ao longo de quase duas décadas. Dentro desse grupo, ela isolou os casos em que o motivo do atendimento era especificamente uma queixa comportamental atribuída ao estro: comportamento estral persistente ou exagerado, dor inexplicada, queda de performance, agressividade ou cólica recorrente que os tutores associavam ao ciclo reprodutivo.
O objetivo não era apenas entender esses casos, mas também propor um protocolo diagnóstico em camadas, capaz de ajudar clínicos a priorizar exames e direcionar o nível de cuidado adequado.
O que os dados mostraram
Os resultados desafiam boa parte do senso comum sobre “éguas difíceis”:
Nenhum caso confirmado.
Entre as éguas avaliadas especificamente por queixas comportamentais atribuídas ao estro, os problemas de comportamento, dor ou baixa performance não puderam ser consistentemente confirmados como relacionados ao ciclo estral em nenhuma delas.
A “égua no cio” muitas vezes não estava no cio.
Das éguas apresentadas por comportamento estral persistente ou intenso, 57% estavam, na verdade, em diestro — a fase do ciclo em que normalmente a égua está mais tranquila, não menos. Isso sugere que comportamentos completamente normais estavam sendo mal interpretados como sinal hormonal.
O hormônio nem sempre é o vilão certo.
Cólica recorrente, dor inespecífica e sinais relacionados ao trato urinário foram, na verdade, mais frequentes em castrados do que em éguas — o que reforça que esses sintomas raramente têm origem hormonal, mesmo quando a tentação de “culpar o ciclo” é grande.
Agressividade tem outro endereço.
O comportamento agressivo esteve significativamente associado a diagnósticos ortopédicos, e não a alterações hormonais.
Diagnósticos internos concentrados no diestro.
Curiosamente, quando havia de fato uma condição de medicina interna por trás da queixa, ela tendia a estar associada ao diestro — não ao estro, como normalmente se presume.
Por que isso importa na prática
Esse estudo não diz que o ciclo estral nunca influencia o comportamento — distúrbios reprodutivos genuínos existem e podem, sim, causar desconforto. O que ele mostra é que a associação automática entre “comportamento difícil” e “hormônio” costuma ser feita sem verificação real do estágio do ciclo, e isso tem um custo: atrasa o diagnóstico do problema de fato responsável, seja ele dor ortopédica, desconforto digestivo, questões de manejo ou treinamento.
A recomendação da própria pesquisadora é direta: antes de atribuir uma mudança de comportamento ao estro, é preciso confirmar objetivamente — por palpação e ultrassonografia — em que fase do ciclo a égua realmente está no momento da queixa. Sem essa confirmação, a “explicação hormonal” é apenas uma suposição.
O que investigar antes de culpar o ciclo
- Dor musculoesquelética e ortopédica (especialmente diante de agressividade)
- Ajuste de sela, cilha e equipamento
- Manejo, rotina e ambiente
- Aspectos de treinamento e comunicação com o cavaleiro/condutor
- Confirmação real da fase do ciclo estral, via exame clínico — não por suposição
Conclusão
A “égua difícil por causa do hormônio” é, com frequência, uma narrativa mais simples do que a realidade. A ciência está mostrando que vale a pena investigar mais fundo antes de rotular — porque, na maioria das vezes, o corpo da égua está tentando comunicar outra coisa.
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Perguntas frequentes
Éguas são realmente mais “hormonais” que outros cavalos?
A pesquisa não encontrou confirmação consistente de que queixas comportamentais atribuídas ao estro estivessem de fato relacionadas ao ciclo hormonal — muitas vezes a causa real era ortopédica, digestiva ou de manejo.
O estro pode mesmo causar dor ou comportamento difícil?
Distúrbios reprodutivos genuínos existem e podem causar desconforto, mas o estudo mostra que essa é a exceção, não a regra — e não deve ser a primeira suposição sem confirmação clínica.
Como saber se o comportamento da minha égua está relacionado ao ciclo?
A única forma confiável é confirmar objetivamente a fase do ciclo por palpação e ultrassonografia no momento da queixa, em vez de presumir pela data ou pelo comportamento observado.
Se não é hormônio, o que mais pode estar causando o comportamento?
As causas mais associadas no estudo foram dor musculoesquelética/ortopédica, desconforto digestivo, mau ajuste de sela e cilha, e questões de manejo ou treinamento.
Sofia Cicolo da Silva
Médica Veterinária
Fonte
KARESKOSKI, Anna-Maria. Decoding moody mare syndrome: Retrospective study and tiered diagnostic framework. Journal of Equine Veterinary Science, v. 160, 105850, 2026. Baseado em reportagem da Kentucky Equine Research (KER), “When the Mood Strikes: Mare Behavior Studied”.

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