
Este artigo é uma homenagem ao Dr. Horácio Iungano (in memoriam), médico veterinário pioneiro do barefoot no Brasil, que nos deixou em abril de 2022 devido à febre maculosa.
O que é o barefoot, e por que ele ganhou os holofotes depois de Tóquio
Barefoot é a modalidade em que o cavalo não utiliza ferradura. No Brasil, o pioneiro dessa abordagem foi o médico veterinário Horácio Iungano, que defendia essa prática desde 2002 e chegou a competir em provas de salto com seu próprio cavalo, Xugar do Feroleto, sem ferraduras.
O tema ganhou destaque internacional na Olimpíada de Tóquio 2020, quando a Suécia, campeã na categoria salto, se destacou com dois conjuntos de cavalo sem ferraduras: Peder Fredricson e All In, e Henrik Von Eckermann e King Edward — medalha de ouro. Na época, Von Eckermann comentou que King Edward não usava ferradura havia dois anos, e que isso parecia funcionar bem para o cavalo: “A maioria dos cavalos de elite usa ferraduras, mas o meu não, e também o de Peder Fredricson, não. Assim, metade da equipe sueca será barefoot. Hoje eu também salto com o meu cavalo, Alegria, sem ferraduras.
Os benefícios — e por que não é simplesmente tirar a ferradura

Os benefícios do barefoot são muitos: melhora do bem-estar, da propriocepção, recuperação de estruturas internas do casco como o coxim digital (que costuma atrofiar em cavalos ferrados), melhor absorção de impacto e proteção das articulações.
Na foto Dan Guerreira da Barehoof Strategy e Sofia Cicolo
Mas o barefoot não é simplesmente retirar a ferradura do cavalo — exige uma preparação grande. O casco cresce em média 1 cm por mês, e é justamente nesse crescimento que a nutrição e a condição endócrina do animal aparecem. Um casco que cresce mal, ou de forma irregular, muitas vezes está refletindo um desequilíbrio metabólico, não só um problema local.
A base é metabólica: por que a maioria das laminites tem origem endócrina e nutricional
Para obter um casco saudável, é necessário acompanhamento nutricional e endócrino do animal: sal mineral de boa qualidade, adequação da dieta e uma proporção equilibrada entre carboidrato estrutural e não estrutural ajudam a preparar o cavalo para a transição. Sabe-se que a maior parte dos casos de laminite tem origem endócrina e nutricional — e quando a ferradura, que também atua como proteção do casco, é retirada sem esses cuidados, o risco de laminite aumenta.
Pré-requisitos antes de tirar a ferradura
A retirada da ferradura deve ser acompanhada por médico-veterinário e ferrador habilitados em barefoot. Alguns pré-requisitos são essenciais, como o cavalo estar com um casco ferrado sem casqueamento nas últimas 12 semanas antes da transição — isso permite avaliar o crescimento real do casco antes de começar o processo.
A técnica por trás do casqueamento barefoot
No barefoot, a muralha do casco passa a cumprir a mesma função que a ferradura cumpria. Por isso, o casqueador precisa de treinamento específico para reproduzir a concavidade da sola de acordo com a concavidade da terceira falange, localizar corretamente a linha branca (que normalmente fica encoberta pelo excesso de sola) e realizar o casqueamento da pinça segundo as técnicas de 45 graus usadas no barefoot.
Durante a reabilitação funcional do casco, pode ser necessário o uso de botinhas específicas até que a estrutura ganhe resistência. Também é importante um ambiente adequado — de preferência piquetes do tipo trekking, que permitam movimentação variada, com diferentes tipos de solo e proporções de umidade que favoreçam a recuperação completa do casco.
A história por trás: Horácio Iungano e Dan Guerrera
Horácio Iungano se formou pela UNESP Botucatu, fez mestrado pela Universidade de Edinburgh e, no mesmo período, cursou a escola de Barehoof na Inglaterra. Ao voltar para o Brasil, abriu o Centro de Reabilitação de Cascos Sant’Anna.
Dan Guerrera, americano, se formou ferrador pela Kentucky Horseshoeing School e há mais de 20 anos fundou a Barehoof Strategy na Noruega — hoje já são cinco escolas (Noruega, Suíça, Finlândia, Dinamarca e Inglaterra). Dan e Horácio se cruzaram em 2002, na Nova Zelândia: Dan oferecia um curso de barehoof, e Horácio, em intercâmbio, viu e montou pela primeira vez cavalos sem ferraduras. Desde então, os dois trocavam informações constantemente.
Em homenagem a Horácio, realizamos no início de novembro o I Curso Internacional de Barefoot com Dan Guerrera.

Onde entra a endocrinologia — e por que eu entrei nesse time
Eu, Sofia Cicolo, médica veterinária e mestre pela FMVZ-USP, me uni ao time exatamente pela questão da endocrinologia e nutrição. Em alguns casos, os cascos não reagiam da forma esperada durante a transição — e, na grande maioria deles, os cavalos tinham doenças endócrinas que precisavam ser controladas antes que o casco pudesse responder bem ao processo.
O objetivo continua sendo melhorar a qualidade de vida dos cavalos e apoiar quem deseja fazer a transição para o barefoot — sendo honesto sobre o que isso exige: cuidados constantes, limpeza diária dos cascos, uso de botinhas em situações específicas, e manejo diferenciado de cama e piquete. Essa decisão deve ser sempre acertada em conjunto entre proprietário, treinador, veterinário, ferrador e tratador, e todos os profissionais envolvidos precisam ter conhecimento e treinamento específico em barefoot.
O que vem por aí
Atualmente ofereço assessoria endócrino-nutricional pela METAHORSE e tenho muito conteúdo sobre Barefoot no laminite zero.
Está pensando em fazer a transição do seu cavalo para o barefoot, ou já iniciou o processo e o casco não está respondendo como esperado? A avaliação endócrino-nutricional pode ser exatamente o que falta. Fale com a MetaHorse pelo Instagram @veterinaria_sofia_cicolo ou pelo e-mail metahorsevet@gmail.com.
Perguntas frequentes
Todo cavalo pode virar barefoot?
Não necessariamente, ou não no mesmo ritmo. A transição depende do equilíbrio nutricional e endócrino do animal — cavalos com desequilíbrios metabólicos não controlados têm mais risco de complicações, como laminite, durante o processo.
Por que a nutrição interfere tanto num processo que parece ser só do casco?
Porque o casco cresce refletindo o metabolismo do cavalo. Sal mineral de qualidade, dieta adequada e o equilíbrio entre carboidratos estrutural e não estrutural influenciam diretamente a qualidade do tecido que está se formando.
Quanto tempo antes da transição o casco deve ficar sem casqueamento?
Um dos pré-requisitos é o cavalo estar com o casco ferrado, sem casqueamento, nas últimas 12 semanas antes de iniciar a transição.
Quem deve acompanhar a retirada da ferradura?
Médico-veterinário e ferrador habilitados e treinados especificamente em barefoot — a retirada sem os cuidados necessários pode causar laminite.
Sofia Cicolo da Silva
Médica Veterinária
Fonte
Boletim Apamvet, seção Manejo, p. 23 (apamvet.com.br) — relato da Dra. Sofia Cicolo, em homenagem ao Dr. Horácio Iungano (in memoriam).

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